MIP e Tratos Culturais da Cana-de-Açúcar

Publicado em 21/12/2020

No começo do ano, houve uma baixa do preço da cana, e a primeira coisa que veio à cabeça foi diminuir os custos com tratos culturais da cana-de-açúcar.

Mas mesmo em meio à uma crise, você sabia que é possível reduzir custos e manter a produção da lavoura?

Dentre os diversos tratos culturais que a cana-de-açúcar precisa, está o manejo das pragas que devem ser controladas.

Uma maneira muito eficiente de fazer um bom manejo, e utilizar de forma correta os insumos ao realizar os tratos culturais, é utilizar do Manejo Integrado de Pragas (MIP).

 

Tratos culturais da cana-de-açúcar

Os tratos culturais da cana-de-açúcar envolvem todos os processos necessários para garantir que as plantas se desenvolvam bem durante todo o cultivo.

Esses processos envolvem, por exemplo, a adubação das plantas, sistemas de irrigação, controle de plantas daninhas e controle de pragas e doenças.

O processo de manejo de pragas não deve ser somente baseado no controle químico.

Por isso, a importância de aliar os tratos culturais da cana-de-açúcar com o Manejo Integrado de Pragas (MIP).

Com uma maior utilização da mecanização, que hoje está presente em quase todas as lavouras de cana-de-açúcar, além de uma redução das queimadas da palha, a incidência das pragas tem aumentado gradativamente.

Muitas vezes, o produtor já tem em mente que vai usar um sistema convencional, com aplicações calendarizadas de pesticidas. Mas existe uma maneira mais sustentável e correta de usar esses insumos para garantir um bom desenvolvimento do canavial.

 

Uso de insumos de forma convencional 

Antes mesmo de iniciar o cultivo, alguns produtores têm em mente que em determinadas épocas terão que aplicar certos pesticidas, devido à incidências das pragas naquele momento.

Se você pensa assim, preciso te dizer que esse tipo de manejo pode estar piorando a vida útil da sua lavoura.

Em um manejo convencional, serão adotadas medidas de controle quando os insetos estiverem na área, mesmo sem considerar outros fatores.

Esse tipo de sistema não leva em consideração informações técnicas sobre as principais pragas da cana-de-açúcar. Muitas vezes, os técnicos e agricultores mantêm um mesmo tipo de manejo por muitos anos.

Para piorar, o uso desse manejo convencional não faz o controle das pragas de forma correta, eleva os custos de produção e ainda pode contaminar o ambiente e trazer problemas para a saúde de quem está ali trabalhando.

E aí há um mal uso dos tratos culturais da cana-de-açúcar, gerando muitos prejuízos.

 

Por que aliar MIP e tratos culturais?

Como você pôde perceber, dentre as diversas maneiras de utilização dos tratos culturais na cana-de-açúcar, no manejo das pragas o uso deve ser feito levando em consideração muitos aspectos, que não só a presença dos organismos na lavoura.

É importante aliar o conhecimento técnico com a dinâmica da cultura, além de aplicar os vários métodos de controle. 

O pensamento de que certas pragas estarão presentes em determinadas épocas não está errado. Essa é uma das maneiras para que você fique atento nos momentos ideais de se fazer o monitoramento. 

Mas não pára por aí. O MIP tem como intuito correlacionar os vários fatores de uma cultura com a dinâmica das populações das pragas.

Além disso, no MIP vários aspectos da cultura serão considerados. Todo o processo irá passar por diagnóstico, tomada de decisão e escolha dos métodos para controle das pragas. 


 

Então como fazer os tratos culturais da cana-de-açúcar segundo o MIP?

A primeira coisa a ser feita é entender a dinâmica populacional das pragas e que tipo de pragas são, se são organismos não-praga, pragas-chaves, pragas primárias ou pragas secundárias.

As pragas serão classificadas de acordo com o ponto de equilíbrio (PE), nível de controle (NC) e nível de dano econômico (NDE).

Quando o organismo só atinge o ponto de equilíbrio, não é necessário que você entre com controle, porque não irá causar dano econômico e o trato cultural da cana-de-açúcar será um gasto desnecessário.

Mas quando os organismos chegam a atingir o nível de controle, é necessário que você faça o uso dos tratos culturais da cana-de-açúcar de maneira que as pragas não causem danos econômicos.

 

Organismos não-praga

Alguns insetos podem estar presentes no campo durante todo o cultivo da cana-de-açúcar, mas nunca atingem o nível de controle. Esses são os organismos não-praga.

É importante que você saiba disso, porque se for usar de insumos e tratos culturais apenas pela presença desses insetos, você estará jogando dinheiro fora.

Organismos Não Praga

Não há como dizer exatamente quais são esses organismos, porque irá depender do diagnóstico que você fará na sua propriedade.

 

Pragas primárias

As pragas primárias são aquelas que certamente ocorrem todos os anos e em altas populações. E é necessário que se faça o controle quando atingem o nível de controle.

Podem provocar sérios danos econômicos se não forem controladas no momento certo.

Pragas Primárias

As principais pragas primárias na cultura da cana-de-açúcar são:

Cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata)

Essa praga passou a causar maiores problemas depois que houve redução da queima da palhada da cana-de-açúcar.

Elas surgem após as primeiras chuvas no início da primavera, quando devem ser iniciados os levantamentos dessa praga por monitoramento.

Em condições ideais e altas populações, essa praga pode causar cerca de 25% de perda na produção.

Cigarrinha da Cana-de-Açúcar

Broca-gigante (Telchin licus)

A broca-gigante não ocorre em todas as regiões brasileiras, mas em determinados lugares têm acontecido situações em que as infestações são bastante altas.

Causam danos diretos, deixando os colmos ocos por abrirem galerias e geram falhas nas brotações das soqueiras.

Broca Gigante na Cana-de-Açúcar
Foto: Elio Cesar Guzzo, em Embrapa.

Bicudo-da-cana (Sphenophorus levis)

O bicudo-da-cana é uma praga mais comum no estado de São Paulo, mas pode também ser encontrada em outras regiões do Brasil.

A fase larval desse besouro se alimenta de rizomas e da base dos colmos da cana. Se não for controlado, causa redução da longevidade do canavial e pode reduzir muito a produção.

MIP e Tratos Culturais da Cana-de-Açúcar

Cupins

Outros que causam redução da longevidade do canavial são os cupins. Esses insetos sociais vivem em colônias muito bem organizadas e causam danos nos toletes e nos colmos.

Além disso, provocam falhas na brotação das soqueiras e diminuem muito a vida útil da lavoura. Fazer o levantamento populacional dessas pragas é essencial para evitar prejuízos e entrar com controle no momento certo.

Cupins na Cana-de-Açúcar

Foto: Wilson Novaretti, em Embrapa.

 

Praga-chave

As pragas-chaves estão dentre as pragas primárias, porém elas são pragas que sempre acometem a cultura, independente da região de cultivo, e atingem o nível de controle constantemente.

Pragas Chave na Cana-de-Açúcar

Na cultura da cana-de-açúcar a principal praga-chave é a broca-da-cana.

Broca-da-cana (Diatraea saccharalis)

A principal praga da cultura é a broca-da-cana, espécie Diatraea saccharalis, que está presente em todo o território nacional.

Ocorre durante todo o ciclo da cultura, com até cinco gerações por ano, causando danos diretos e indiretos.

As lagartas penetram os colmos das plantas e fazem galerias tanto longitudinais quanto verticais.

O nível de dano econômico está em torno de 1%.

Broca da Cana-de-Açúcar

Fonte: Portal Syngenta

 

Pragas secundárias 

As pragas secundárias ou ocasionais são aquelas que raramente atingem o nível de dano econômico e, por isso, não costumam ser uma preocupação por causa de danos econômicos. 

Pragas Secundárias

As pragas secundárias da cana-de-açúcar apresentam menor potencial de causar danos. As principais delas são o pão-de-galinha, os elaterídeos, crisomelídeos, pérola-da-terra, broca-peluda, percevejo-castanho e alguns outros coleópteros.

 

Monitoramento

Ao saber que nem todos os organismos lhe causarão danos, ficará mais fácil decidir quais serão aqueles que deverão ser mais bem monitorados, certo?

Juntamente com isso, você deve entender como monitorar e quais os níveis de controle para cada praga.

O monitoramento da lavoura de cana-de-açúcar consiste em fazer a diagnose e a avaliação daquelas pragas que terão maior potencial de dano.

É claro que as demais pragas não ficarão de lado, mas é como se elas “pegassem carona” com o monitoramento daquelas pragas que são mais preocupantes.

Talvez você achasse que essa prática não tem muito a ver com os tratos culturais da cana-de-açúcar, mas, se você pensava assim, está bastante enganado(a).

Você viu que existem as pragas que são mais preocupantes no cultivo do canavial e existem aqueles organismos em que não há necessidade de controle.

Porém, no MIP mesmo as que você já sabe que poderão lhe dar prejuízos, se não controladas, precisam ser monitoradas.

Isso porque os inimigos naturais presentes na lavoura irão contribuir para a redução das populações das pragas. Então, é importante entender essa dinâmica natural que estará ocorrendo para que, se necessário, tomar a decisão de entrar com algum método de controle.

De forma geral, para realizar o monitoramento, existem dois caminhos que você pode seguir. O primeiro seria fazer amostragens de maneira convencional e amostragens de forma sequencial.

Amostragem

O ideal é dividir a área em talhões e escolher um tipo de caminhamento. Importante que o caminhão seja padronizado em todos os talhões.

Também é importante decidir pelas técnicas de amostragens, se por contagem dos insetos que forem sendo encontrados ou por aparatos, como armadilhas.

Outra coisa é padronizar o número de amostras por talhão e a época em que você fará as amostragens de acordo com o conhecimento adquirido sobre as principais pragas da cultura e os melhores momentos para se fazer a amostragem.

Exemplo de amostragem

Esse exemplo de amostragem foi realizado para broca-da-cana (Diatraea saccharalis). Tanto em áreas de cana-planta e cana-soca serão feitos os levantamentos.

Importante amostrar durante todo o cultivo, pois essa praga estará presente a todo momento.

Pode-se fazer um sistema de mosaico. Nesse caso, podem ser selecionados os talhões representativos da área e fazer distribuição uniforme dos pontos em cada talhão.

  • Cana-planta - fazer levantamento de 2 a 4 meses após o plantio.

  • Cana-soca - fazer o levantamento de 2 a 4 meses após a colheita.

Levantamentos Populacionais na Cana-de-Açúcar
Fonte: SOCICANA

 

Com essas informações, o que fazer?

Até aqui, você pôde ver que nada adianta querer utilizar os tratos culturais da cana-de-açúcar sem antes entender sobre o que realmente são as pragas, quais são as principais delas e quando há a necessidade de controlá-las.

Após fazer o monitoramento, você terá em mãos o nível populacional naquele momento específico e poderá tomar a decisão de controlar ou não.

E, quando for preciso entrar com o controle, você ainda poderá decidir não apenas por um tipo, como pelo controle químico como acontece no controle convencional. Mas será possível optar por diversos controles ao mesmo tempo.

Imagino que você já deve ter visto a estrutura da casa do MIP, mas vou relembrar aqui para você.

Pilares do MIP

Na base da estrutura (em laranja) é possível ver que antes de entrar com qualquer método de controle, você precisa de todo o conhecimento sobre taxonomia, monitoramento, níveis de controle e conhecer as condições ambientais da sua região.

Sabendo disso e tendo feito todo o processo para escolha do método de controle, você irá fazer um manejo integrado dos vários métodos que estão nos pilares da casa do MIP.

Para fazer os tratos culturais da cana-de-açúcar, deve-se levar em consideração o controle cultural, controle biológico, controle comportamental, controle genético, controle varietal e controle químico, dentre os diversos métodos que têm sido implementados na cultura.

Continuando com nosso exemplo com a broca-da-cana...

Sabendo que é uma praga-chave, você poderá utilizar das diversas variedades geneticamente modificadas que são tolerantes à praga.

Outra forma de controlar essa praga é com a liberação de inimigos naturais na área, o que já é muito bem consolidado com o uso dos parasitoides Cotesia flavipes e Trichogramma galloi.

Diversas biofábricas comercializam esses produtos biológicos e até mesmo as próprias usinas produzem.

Controle Biológico da Cana-de-Açúcar

Fonte: Defesa Vegetal

O controle químico também pode ser utilizado para reduzir a população das lagartas neonatas, aquelas que acabaram de eclodir do ovo e estarão sobre as folhas da cana.

Existem cerca de 45 produtos registrados, incluindo químicos e biológicos, para controle da broca no site do MAPA, o Agrofit.

Além disso, o controle cultural da cultura, com bom manejo de solo, retirada de plantas daninhas que servem de abrigo para as pragas e outros manejos culturais irão contribuir para a redução dessa praga-chave.

O mesmo deve ser feito para outras pragas.

 

Conclusão

Os tratos culturais da cana-de-açúcar são utilizados para diversos fins, dentre eles o manejo de pragas.

Mas, muitas vezes, esse manejo é feito de maneira errônea o que leva o produtor a usar muito mais insumos do que realmente precisa. 

No Manejo Integrado de Pragas (MIP), vai ser possível aliar conhecimento técnico com a real necessidade do uso de insumos. 

Com as informações deste artigo, você consegue ter uma base para evitar erros com os tratos culturais da cana-de-açúcar ao longo de toda a safra da cana.

 

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Thaís Fagundes Matioli
Thaís Fagundes Matioli
Sou Engenheira Agrônoma formada pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), mestre em Ciências/Entomologia pela ESALQ/USP, e doutoranda no Departamento de Entomologia da ESALQ/USP.
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